Hiperestimulação Materna: Por que seu cérebro não desliga (e sua libido também não liga)


São 00:52. Depois de longos minutos tentando acalmar meu filho mais novo que acordou de um despertar noturno que não teve fim, eu finalmente deito em minha cama.

Com as pernas entrelaças nas do meu marido, escrevo este artigo. O celular debaixo da coberta para não refletir a luz em meu filho mais novo, que acabou de dormir depois de embala-lo de pé ao lado de sua cama, na expectativa de que agora ele finalmente irá dormir. 


Tivemos um dia repleto de estímulos: casa dos avós, três banhos de piscina, brincadeiras ao ar livre e mãozinhas explorando a terra. Ora molhada, ora seca. Ora com pedregulhos, ora areia fina.


Enquanto os meus dois filhos brincavam e as vezes acabavam se desentendendo nas brincadeiras, eu os observava. A infância, a calma, a leveza. Mas sabia que o preço chegaria.


Só que, depois de um dia fora da rotina, a hiper estimulação infantil mandou lembranças na madrugada. Ele, que chegou em casa já dormindo, acordou com um leve choro. O acalmei, acalentei, e amamentei. Ele dormiu, e eu agradeci, porque o cansaço já estava me vencendo.


Alguns minutos depois, mais um despertar. Deito de novo com ele em sua cama, mais carinho, mais uma mamada. Suas mãozinhas acalentam meu colo, como se quisessem retribuir o zelo proporcionado pela amamentação. E então, ele dorme novamente. Só que desta vez, se mexe e remexe sobre mim. Ora deita sobre meu rosto, ora sobre meu peito, ora sobre minhas pernas. Como uma minhoquinha vai rastejando até se acalentar próximo de mim. Com aquela inquietação de quem não consegue "pousar" o corpo.


Levanto para ir até o banheiro, e na volta a surpresa: mais um despertar. Dessa vez, mais choro, inquietação. Meu marido vê que as coisas estão fora do comum e juntos, oramos. Mais um acalento. E dessa vez, decidi me levantar, e com ele em meu colo, canto até ele dormir.


Finalmente! Agora estou aqui. Escrevendo, no escuro, apenas para não perder as palavras certas em meio a turbilhão de pensamentos que terei no dia seguinte (ou melhor, nas próximas horas).


O espelho da hiper estimulação


E porque te contei tudo isso? Por dois bons motivos. O primeiro, e mais óbvio: que não é apenas com você. Eu também tenho noites cansativas, desafios, e dias em que me pergunto de onde tirarei forças, se meu corpo clama por descanso.


O segundo motivo é técnico: afinal, além de mãe, também sou Especialista em Libido após a Maternidade, e o que meu filho sentiu hoje, esse excesso de estímulos que impede o sono,  é o que nós, mães, vivemos todos os dias. É a Hiper estimulação Materna


Não como um episódio, como no caso do meu filho, mas como, dia após dia somos inundadas por estímulos sem fim, que colocam nosso cérebro em um estado de hiper vigilância constate. E que, esse estado bloqueia nossa libido, se não olhado com atenção. 


O cérebro em estado de alerta (Hiper vigilância)


Diferente do seu filho, que se acalma com o seu colo ou mamando,  já que o ato da sucção estimula o nervo vago e libera endorfinas que baixam o batimento cardíaco dele quase instantaneamente, a mãe vive uma hiper estimulação crônica. Para nós, não há um "botão de desligar" tão simples. É o cérebro que, mesmo em repouso, não descansa. 


É a lista mental de decisões:

• “Será que a mochila está pronta?”

• “Esqueci de tirar o lixo para fora.”

• “O choro que ouvi foi real ou foram vozes da exaustão na minha cabeça?”


Esse estado é chamado de Hiper vigilância Constante. Biologicamente, seu corpo é inundado por dois protagonistas do estresse: o Cortisol e a Adrenalina.


• A Adrenalina te deixa em estado de "prontidão", como se você estivesse prestes a correr de um perigo.

• O Cortisol mantém o corpo em alerta por longos períodos, aumentando o açúcar no sangue e focando toda a sua energia na resolução de problemas.


O grande problema? O seu Sistema Nervoso Autônomo é o mesmo que controla a sua libido. Ele funciona como uma balança: de um lado está o sistema "Luta ou Fuga" (alerta) e do outro o "Descanso e Digestão" (onde mora o prazer).


Se o Cortisol e a Adrenalina dizem que você está em uma "missão de sobrevivência", seu sistema nervoso entende que o sexo é um gasto de energia desnecessário agora. Afinal, quem consegue relaxar para o prazer enquanto o cérebro acredita que precisa vigiar o ninho contra uma ameaça invisível?


O bloqueio da libido: Por que o corpo não "responde"?


Aqui entra o ponto crucial que muitas mães ignoram: o nosso cérebro possui uma prioridade biológica inegociável, a sobrevivência.


Para o sistema límbico (o nosso centro emocional), a hiper vigilância materna não é apenas "cansaço", é um aviso de alerta. E a regra na natureza é clara: ninguém para para sentir prazer enquanto sente que precisa vigiar o ninho ou antecipar o próximo "ataque" (que, no nosso caso, é o próximo choro ou a lista de tarefas de amanhã).


A libido exige o que chamamos de Segurança Neuroceptiva. Isso significa que, para o desejo aparecer, o seu sistema nervoso precisa de evidências reais de que o ambiente está seguro e que você tem permissão para relaxar o controle (por isso o contexto é tão importante para sua libido).


Mas como entregar o controle se a sua mente está ocupada fazendo o inventário do dia seguinte? É esse o conflito: o seu marido quer conexão, mas o seu cérebro ainda está "de plantão". Enquanto você não sentir que pode baixar a guarda sem que algo saia do lugar, o corpo dificilmente enviará o sinal de "verde" para a excitação.


O "terceiro turno" e a lista mental interminável 

Sabe aquela cena clássica do filme "Não sei como ela consegue", onde a protagonista está deitada, mas os olhos estão arregalados, revisando mentalmente cada detalhe da rotina? Aquele é o nosso terceiro turno de trabalho. É o gerenciamento invisível que acontece no escuro do quarto.


Enquanto seu corpo tenta descansar, sua mente está fazendo o inventário: a lancheira, o uniforme, o e-mail que ficou no rascunho, o aniversário na escola. Esse fenômeno cria uma Inércia Mental. É como um motor que continua girando em alta rotação mesmo depois que você desliga a ignição.


O prazer exige presença. Mas como estar presente no toque do seu marido se você está "viajando no tempo", ora resolvendo o que ficou para trás, ora antecipando o caos de amanhã?


O toque que vira tarefa


Nesse estado de hiper estimulação, o seu radar sensorial muda. Quando o sistema nervoso está saturado por um dia de demandas físicas e decisões mentais, o toque do seu marido pode sofrer um erro de tradução.


Em vez de ser lido como um convite à conexão, ele é processado como mais uma demanda. O carinho na pele vira um estímulo "invasivo" para quem passou o dia sendo tocada, puxada e solicitada. Sua resposta automática de "hoje não" é, na verdade, um grito de socorro do seu sistema sensorial pedindo por silêncio e espaço.


De quem é a culpa?


A primeira coisa que quero que você faça após ler este relato de madrugada é: tire a culpa do seus ombros. O que meu filho viveu hoje com os super estímulos, e o que eu e você vivemos com as listas intermináveis, tem o mesmo nome: excesso de estímulos para um sistema que precisa de calma para funcionar.


Como começar a "desligar"?


Não há fórmula mágica, mas o primeiro passo é a consciência. Entender que sua falta de libido hoje não é um defeito de fabricação, mas um excesso de estímulos acumulados, abre espaço para a autocompaixão. 


A sua libido não desapareceu; ela apenas não consegue competir com um cérebro que acredita que ainda está em "horário comercial", operando em modo de sobrevivência.


Quando você entende que seu sistema nervoso está apenas tentando te proteger do esgotamento, a pressão diminui. E é justamente nesse espaço, onde a cobrança sai e a compreensão entra, que a libido tem uma chance de respirar novamente.


Por agora, se você também está no escuro, debaixo da coberta, apenas respire. Reconheça que seu corpo fez muito hoje. 


No próximo post, vou te mostrar como começar a sinalizar para o seu sistema nervoso que "o turno acabou", criando pequenas pontes de retorno para o seu próprio prazer.


Lembre-se que você está fazendo um trabalho incrível, mas você também merece a liberdade de voltar para casa. Para o seu corpo e o descanso da sua mente. 


E amanhã? Bom, amanhã provavelmente terei algumas olheiras de uma noite mal dormida. Afinal, meu marido acaba de acordar, me olha e pergunta: 'Você ainda está escrevendo o artigo?'.


Então sim, troquei uma parte da minha madrugada por este texto... Mas quer saber? Valeu a pena. Valeu a pena porque eu sei que, enquanto eu escrevo no escuro, você está aí do outro lado lendo e, finalmente, se sentindo compreendida.

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Camila Salvan é Especialista em Libido Feminina após a Maternidade, e mãe de dois. É autora do primeiro livro sobre Matrescência no Brasil e criadora do método que auxilia mães a resgatarem sua libido e identidade após a chegada dos filhos. Com formação dedicada a entender as transformações da libido no universo materno, Camila é a voz técnica e o coração por trás dos conteúdos do Blog Libido após a Maternidade.

Acompanhe mais no Instagram @camila.salvan

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