O mito da "vagina larga": O que a ciência realmente diz sobre o prazer no pós-parto


Sabe aquela história que te contaram: "não tenha parto normal, você vai ficar larga"? Pois é. Se você já sentiu insegurança sobre o seu corpo após o parto, ou se ouviu aquele comentário maldoso sobre a vagina ficar 'larga' depois de um parto normal... como mãe de dois, e depois de dois partos normais, eu tenho que dizer: se te contaram isso, esqueceram de te contar a história inteira. 

Muitas mães relatam que o sexo "parece diferente'" ou que sentem menos atrito na penetração após os filhos. A primeira conclusão que a sociedade nos empurra é que 'a vagina ficou larga após o parto’. Mas, como especialista, eu quero te mostrar que o problema raramente é o tamanho do canal, mas sim o que está acontecendo (ou deixando de acontecer) por trás das paredes vaginais.

Por que você sente que está "diferente"?

Se você sente que está "larga" ou que não sente tanto atrito na penetração, o motivo quase nunca é estrutural. O canal vaginal é um músculo extremamente elástico que, após o parto, tende a voltar ao seu estado natural. O verdadeiro motivo dessa sensação é vascular e neurológico.

O poderoso "abraço"

Para entender o prazer na penetração, precisamos parar de olhar para a vagina como um simples "tubo" e começar a olhar para o clitóris.

O que a maioria das pessoas não sabe é que o clitóris não é apenas aquele pequeno botão externo. Ele é um órgão complexo, com "pernas" e "bulbos" internos que envolvem o canal vaginal.

Quando a mulher está verdadeiramente excitada e segura, esses bulbos se enchem de sangue (ingurgitamento). Esse inchaço faz com que os tecidos internos "abracem" o canal vaginal por dentro. É esse inchaço dos bulbos clitoridianos que cria a sensação de firmeza e atrito prazeroso para ambos.

O que a biologia escondeu de você

Você sabia que, proporcionalmente, o sistema genital feminino precisa mobilizar um volume de sangue surpreendente para atingir o prazer pleno?

Para você ter uma ideia, enquanto a ereção masculina é um evento localizado, a "ereção feminina" (o ingurgitamento dos bulbos e pernas do clitóris) envolve uma rede vascular muito mais extensa. Estudos indicam que, no ápice da excitação, a região pélvica feminina pode chegar a reter até 100ml a 200ml de sangue extra para criar aquele "abraço" firme no canal vaginal.

Compare isso: É como se o corpo masculino precisasse encher um copo pequeno, enquanto o corpo da mulher precisa encher uma taça grande e profunda.

O que isso significa para você, mãe?

Significa que o seu corpo precisa de duas coisas que a maternidade insiste em nos tirar: TEMPO e SEGURANÇA.

Não existe "mágica" para mover cerca de 150ml de sangue do seu cérebro, onde ele está sendo usado agora para planejar a rotina de amanhã, para a sua pelve em apenas dois minutos. Se você está estressada ou em estado de alerta, o seu coração vai priorizar o envio desse sangue para os seus pulmões e pernas (o chamado modo de sobrevivência), e não para os órgãos sexuais.

Por que o homem parece estar "sempre pronto" e você trava na hora H?

Se o seu marido parece pronto instantaneamente enquanto você sente que "nada está acontecendo" aí embaixo, entenda: não é porque você está "larga". É porque o seu sistema vascular pélvico é muito mais complexo e o seu reservatório demora mais para encher.

Aqui entra o xeque-mate: se a sua mente está ocupada com a lancheira do dia seguinte, com o choro do bebê no monitor ou com a insegurança sobre a sua nova imagem, o seu cérebro entende que você está em perigo. Para a biologia, o prazer é um luxo; a sobrevivência é a prioridade.

O resultado? O cérebro "confisca" o sangue que deveria estar nos bulbos clitoridianos e o mantém nos músculos e nos centros de alerta. Sem sangue, o inchaço não acontece. Sem inchaço, o "abraço" interno não vem. O problema nunca foi o tamanho do seu canal vaginal, mas sim o seu sistema de defesa impedindo o sangue de chegar onde ele deveria estar.

Por que você sente que está "diferente"?

Se você sente que está "larga" ou que não sente tanto atrito, o motivo quase nunca é estrutural (o canal é um músculo elástico que volta ao lugar). O motivo é vascular e neurológico.

Lembre-se que sua libido é controlada por freios e aceleradores. Então, isso significa que:

 Se você está exausta, com medo de o bebê acordar ou desconectada do seu corpo, o seu Freio está acionando.

 Quando o freio está ligado, o sangue não flui para os bulbos do clitóris.

 Sem sangue, não há o inchaço. Sem inchaço, não há o "abraço" interno.

O resultado? Uma penetração que parece "vazia" ou sem graça. O problema não é o tamanho da "porta", é o fato de o seu corpo não ter recebido o sinal de segurança para "liberar o acesso" para o prazer. O seu corpo ainda sabe o caminho; ele só precisa que você tire o pé do freio.

A culpa não é do parto, é do modo alerta

Muitas mulheres que tiveram cesárea sentem a mesma sensação de "vagina larga". Isso prova que o fator principal não é a passagem do bebê, mas o estado de alerta da matrescência.

Enquanto você não soltar os freios e permitir que o seu sistema nervoso entenda que aquele momento é seguro para o prazer, o seu corpo não vai enviar o sangue necessário para criar o aperto natural da excitação.

O que fazer se você sente que a "conexão" não é mais a mesma?

Se você sente que o atrito diminuiu, antes de buscar soluções milagrosas ou se culpar pelo parto, faça um teste de "Auditoria de Excitação":

1. Aumente o tempo de aquecimento: O cérebro materno precisa de, no mínimo, 15 a 20 minutos de estímulos (não necessariamente genitais) para sinalizar ao coração que é hora de enviar sangue para a região pélvica.

2. Use e abuse do estímulo clitoridiano: Lembre-se, o clitóris é o "motor" do aperto. Estimular o botão externo é o que ajuda a encher os bulbos internos. Sem esse estímulo, o "abraço" não tem força.

3. Avalie seus Freios: Se você está transando "por obrigação" ou com pressa para o bebê não acordar, o seu sistema de segurança vai bloquear o fluxo sanguíneo. O prazer requer permissão interna.

Conclusão: O caminho de voltar para o prazer

O prazer no pós-parto não se recupera apenas com exercícios físicos feitos de qualquer jeito (embora a fisioterapia pélvica seja fantástica!). Ele se recupera com excitação real.

Para sentir o "abraço" interno novamente, você precisa de tempo para as preliminares e de Segurança Neuroceptiva, a certeza de que não será interrompida e que o seu corpo é seu. Foque no estímulo clitoridiano; ele é quem realmente "aperta" a vagina por dentro.

Mães, tirem esse peso das costas. O seu corpo é uma máquina perfeita de prazer que passou por uma grande reforma. O canal vaginal é resiliente e potente. O que muitas vezes nos falta não é "aperto", é a permissão para o sangue fluir.

Você não está larga. Você está, talvez, apenas desativada temporariamente por um excesso de cautela do seu cérebro. Quando você se sente segura, desejada e relaxada, o "abraço" acontece naturalmente. O prazer pós-maternidade não é o fim da linha, é o início de uma nova, e mais consciente, forma de sentir.

Você já sentiu que o 'tempo de aquecimento' mudou depois dos filhos? Me conta aqui nos comentários.

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Camila Salvan é Especialista em Libido Feminina após a Maternidade, e mãe de dois. É autora do primeiro livro sobre Matrescência no Brasil e criadora do método que auxilia mães a resgatarem sua libido e identidade após a chegada dos filhos. Com formação dedicada a entender as transformações da libido no universo materno, Camila é a voz técnica e o coração por trás dos conteúdos do Blog Libido após a Maternidade.

Acompanhe mais no Instagram @camila.salvan


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